Feminicídio não é sobre números. É sobre motivos.
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Newsletter Raízes do Saber
Volta e meia, quando falamos sobre violência contra mulheres, surge um comentário que parece lógico à primeira vista:
“Mas homens também morrem.”
“Todo mundo morre.”
Sim, homens morrem.
Sim, toda vida importa.
Mas nem todo mundo é morto pelo mesmo motivo — e é exatamente aí que mora uma das maiores distorções desse debate. Quando comparamos “quantos homens morrem” com “quantas mulheres morrem”, estamos misturando fenômenos diferentes, como se fossem a mesma coisa. Não são.
Homicídio é quando alguém é morto.
Feminicídio é quando uma mulher é morta por ser mulher.
Não se trata de quantidade total. Trata-se de motivação, contexto e padrão de violência.
A ONU Mulheres explica isso de forma muito clara. No mundo inteiro, a maioria dos homens assassinados morre em contextos como conflitos armados, disputas criminais, confrontos entre grupos e dinâmicas de violência pública. Já as mulheres, majoritariamente, são mortas dentro de casa, por companheiros, ex-companheiros ou familiares, em situações atravessadas por controle, posse, ciúme e violência doméstica.
Quando uma mulher é assassinada porque decidiu terminar um relacionamento.
Quando é morta porque disse “não”. Quando apanha durante anos e o último episódio de violência resulta em morte. Ela não morreu “porque todo mundo morre”. Ela morreu porque ousou sair do lugar que esperavam que ela ocupasse.
O termo feminicídio não surge por acaso. Ele existe porque, durante séculos, essas mortes foram naturalizadas e romantizadas como “crime passional”, “briga de casal” ou “excesso de emoção”. Dar nome é romper com essa naturalização. É reconhecer que existe um sistema que educa homens para controlar mulheres — seus corpos, suas escolhas, suas vidas.
Não por acaso, a ONU Mulheres afirma que, em muitos países, o lugar mais perigoso para uma mulher é a própria casa. Essa constatação desmonta de vez a comparação rasa de que “todo mundo morre do mesmo jeito”.
Feminicídio não é sobre disputar sofrimento. Não é uma competição de dor, nem um ranking de vítimas. É uma ferramenta política e analítica para entender por que, em pleno século XXI, mulheres continuam sendo mortas por serem mulheres. Enquanto tratarmos esse debate como “mimimi”, enquanto reduzirmos tudo a números soltos e comparações vazias, a violência segue intacta — silenciosa, cotidiana e legitimada.
Nomear é um passo fundamental. Compreender é outro.
E agir, coletiva e estruturalmente, é o único caminho para que essas mortes deixem de ser rotina e passem a ser, de fato, inaceitáveis.
Na Mandela Consultoria Antirracista, partimos do princípio de que nomear a violência é um ato político e educativo. Falar sobre feminicídio com seriedade, dados e consciência crítica não é exagero — é responsabilidade social. Enquanto estruturas de poder seguirem naturalizando o controle sobre corpos femininos, sobretudo os corpos das mulheres negras, seguiremos produzindo conhecimento, formação e estratégias que confrontem essa lógica.
Raízes do Saber existe para isso: provocar reflexão, ampliar repertório e transformar silêncio em ação. Porque enfrentar o feminicídio exige mais do que indignação momentânea — exige compromisso contínuo com a justiça social, a equidade de gênero e o antirracismo.
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